Neste artigo, o colaborador Rivelino Liberalino faz uma reflexão sobre as dores que muitas pessoas carregam em silêncio, tomando como ponto de partida a história da atriz Zezé Macedo. O texto aborda como o sorriso nem sempre reflete a realidade de alguém, alerta para os julgamentos baseados em aparências e convida o leitor a exercitar mais empatia, compreensão e sensibilidade diante das batalhas invisíveis enfrentadas por quem está ao nosso redor.

Foi nessa fonte inesgotável e hipnotizante de informações que, dias atrás, encontrei uma história que me fez parar o movimento automático da tela. Tratava-se de um relato sobre a vida Zezé Macedo. Até então, eu conhecia apenas a atriz. Descobri a mulher, ou melhor, fui apresentado ao ser humano.

Para milhares de brasileiros, Zezé Macedo era apenas Dona Bela, a personagem inesquecível da Escolinha do Professor Raimundo. A mulher engraçada, caricata, dona de uma voz rouca que arrancava gargalhadas de gerações inteiras. O Brasil ria com ela. Aplaudia sua espontaneidade. Encantava-se com seu talento. Mas quase ninguém imaginava que, por trás daquele riso tão generoso, existia uma dor que jamais encontrou o seu último capítulo.

Segundo relatos amplamente difundidos ao longo dos anos, Zezé perdeu um filho ainda muito pequeno em um acidente doméstico. O choque teria sido tão devastador que ela perdeu a voz. Quando voltou a falar, a voz nunca mais recuperou a sonoridade de antes. Tornou-se rouca. E permaneceu assim até o fim da vida.

Não sei se todos os detalhes dessa narrativa resistem ao rigor histórico, não obstante os fatos tenham sido confirmados em uma pesquisa preliminar. Mas, sinceramente, existe uma verdade que independe da precisão de cada episódio: toda pessoa carrega uma história que o mundo não vê.

Aquela voz que tantos associavam ao humor, para muitos, passou a representar apenas uma característica curiosa da atriz. Poucos imaginaram que ela pudesse ser, simbolicamente, a lembrança permanente de uma tragédia. E talvez seja exatamente isso que mais me tenha tocado. Quantas vezes transformamos em motivo de riso aquilo que nasceu da dor de alguém?

Depois vieram outras perdas. O casamento terminou. A vida seguiu exigindo dela aquilo que sempre exige dos que sofrem: que continuem funcionando. Que trabalhem. Que cumpram horários. Que paguem contas. Que sorriam quando necessário. Que entretenham os outros, mesmo quando já não encontram alegria dentro de si.

Zezé escrevia poesias. Publicou livros. Sonhava interpretar personagens dramáticos. Talvez desejasse colocar na arte aquilo que a vida lhe obrigara a silenciar. Mas o mercado enxergava apenas a caricatura. Deram-lhe, repetidas vezes, o papel da mulher engraçada, da solteirona, da personagem exótica que existia para provocar risos.

E ela cumpria seu ofício com uma competência extraordinária.

Enquanto milhões riam, talvez ninguém percebesse que algumas pessoas aprendem a fazer humor não porque a vida lhes foi leve, mas justamente porque ela lhes foi pesada demais.

Essa percepção me atravessou de maneira muito particular.

Durante muitos anos da minha vida, também fui identificado como alguém alegre. Sempre gostei de conversar, reunir pessoas, contar histórias, acolher, brincar, aliviar o ambiente. Muitas vezes eu era justamente aquele que fazia os outros sorrirem.

Pouquíssimas pessoas, entretanto, conheciam as batalhas que eu travava quando as portas se fechavam.

Hoje compreendo que existe uma diferença enorme entre alegria e felicidade. A alegria pode ser um gesto. Pode ser um instante. Pode até ser um mecanismo de sobrevivência. A felicidade, porém, é outra construção, muito mais profunda e muito mais complexa.

Conheci pessoas extraordinariamente bem-humoradas que enfrentavam depressões severas. Tenho um primo querido que, onde chega, transforma qualquer ambiente. É impossível não rir ao seu lado. No entanto, convive há anos com uma depressão profunda. Quem o observa superficialmente dificilmente acreditaria nisso.

Talvez porque ainda sejamos muito ingênuos diante da alma humana.

Continuamos acreditando que quem sorri está bem. Que quem trabalha sem reclamar está forte. Que quem ajuda todo mundo não precisa de ajuda. Que quem faz piadas não chora. Como se o sofrimento obedecesse a regras tão simples.

Não obedece.

Existem pessoas que escondem a tristeza atrás do excesso de trabalho. Outras a escondem atrás da religiosidade. Algumas atrás do sucesso profissional. Outras atrás do humor.

O sorriso, às vezes, é apenas a roupa que a dor veste para conseguir sair de casa.

Vivemos também sob uma ditadura silenciosa da felicidade. As redes sociais nos convenceram de que precisamos parecer bem o tempo inteiro. Publicamos viagens, conquistas, aniversários, vitórias e sorrisos. Quase ninguém publica a madrugada insone, a crise de ansiedade, o medo de envelhecer, o luto que não termina, o casamento que se desfaz, a culpa, a vergonha ou a solidão.

Criamos vitrines bonitas para esconder depósitos desorganizados.

E, aos poucos, passamos a acreditar na mentira que nós mesmos produzimos.

Eu só comecei a respirar com um pouco mais de liberdade quando parei de lutar para parecer invulnerável. Não foi a dor que desapareceu. Foi minha relação com ela que mudou.

O autoconhecimento, a espiritualidade, os grupos de ajuda mútua, as perdas, os fracassos e também os reencontros ensinaram-me algo precioso: nenhuma dor diminui quando fingimos que ela não existe.

Ao contrário.

As dores ignoradas costumam criar raízes.

Transformam-se em ansiedade, compulsão, dependência, adoecimento físico, irritabilidade, insônia ou depressão. A alma sempre encontra uma maneira de avisar que precisa ser escutada.

Talvez por isso eu tenha aprendido a desconfiar das aparências.

Hoje, quando encontro alguém excessivamente alegre, já não concluo imediatamente que aquela pessoa seja feliz. Às vezes penso exatamente o contrário: talvez ela apenas tenha aprendido, com enorme competência, a esconder suas lágrimas.

A maior crueldade que cometemos contra quem sofre talvez seja estabelecer prazo para a dor. Nos primeiros dias todos abraçam. Depois começam as cobranças. “Você precisa seguir em frente.” “Já passou tanto tempo.” “Reaja.”

Mas o coração não possui calendário.

Há perdas que nunca deixam de existir. Apenas aprendemos a caminhar carregando-as.

Foi isso que a história de Zezé Macedo despertou em mim. Não apenas compaixão por uma atriz admirável, mas um olhar diferente sobre todas as pessoas que encontro diariamente.

Talvez o colega que mais faz piadas esteja lutando para não desistir da vida.

Talvez a mulher que sorri para todos tenha chorado a noite inteira.

Talvez o homem considerado forte esteja exausto de fingir que suporta tudo sozinho.

Nunca saberemos completamente quais batalhas alguém trava em silêncio.

Por isso, talvez devêssemos ser mais cuidadosos com nossas palavras, mais generosos com nossos julgamentos e mais delicados com as dores que não enxergamos. Porque, muitas vezes, a pessoa que mais ilumina o ambiente é justamente aquela que, em segredo, mais precisa encontrar alguém disposto a acender uma luz dentro dela.

Rivelino Liberalino


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