Neste artigo, o leitor Rivelino Liberalino despeja seu olhar crônico sobre os últimos fatos políticos do país e a magia do futebol com a Copa do Mundo. Confiram:
Entre a corrupção, Messi, Vozinha e Cabo Verde: Talvez a Copa esteja nos ensinando mais sobre a vida do que sobre futebol
Confesso que, nos últimos anos, abrir as redes sociais ou assistir aos telejornais tem sido um exercício cada vez mais difícil. Escândalos se sucedem, operações policiais ocupam as manchetes, figuras públicas que pareciam inabaláveis desmoronam diante dos nossos olhos e, a cada semana, surge um novo capítulo de uma história que parece não ter fim.
Mas, para ser sincero, nada disso me surpreende tanto quanto antes.
A idade, a experiência e os tombos da vida acabam ensinando algumas coisas. Uma delas é que existem leis que independem da vontade dos homens. Newton não inventou a gravidade; apenas percebeu que ela existia. Da mesma forma, ninguém inventou a lei do plantio e da colheita. Ela sempre esteve aí. Silenciosa. Discreta. Implacável.
Talvez por isso eu diga, com frequência, que o tempo continua sendo o maior advogado que conheço. Ele não grita. Não discute. Não faz propaganda de si mesmo. Apenas trabalha. E, quase sempre, chega trazendo à luz aquilo que muitos tentaram esconder.
Vivemos tempos estranhos. Transformamos a política em torcida organizada. Criamos ídolos. Construímos trincheiras. Passamos a enxergar inimigos onde deveriam existir apenas pessoas com opiniões diferentes. Enquanto isso, a corrupção segue transitando livremente entre discursos, bandeiras e ideologias.
A corrupção não tem partido.
A corrupção tem oportunidade.
Ela muda de roupa, muda de discurso, muda de slogan, mas continua sendo exatamente a mesma velha corrupção de sempre.
E talvez tenha sido justamente por isso que a Copa do Mundo tenha surgido como um raro momento de respiro. Por alguns dias, deixamos de discutir quem está certo ou errado para simplesmente torcer. E, curiosamente, as maiores lições desta Copa não vieram dos placares. Vieram das histórias.
Uma delas veio de Messi.
Quando vi suas lágrimas, pensei menos no jogador e mais no ser humano.
Vivemos numa sociedade que vende diariamente a ideia de que a felicidade está logo ali, depois da próxima conquista. Quando eu ganhar mais dinheiro. Quando eu conquistar determinado cargo. Quando eu comprar aquilo. Quando eu chegar lá.
Mas a vida tem me ensinado outra coisa.
Os problemas não desaparecem. Eles apenas mudam de endereço.
Já vi pessoas simples encontrarem serenidade em meio a enormes dificuldades. Também vi pessoas extremamente bem-sucedidas carregarem angústias que dinheiro nenhum conseguia resolver. O sofrimento não respeita patrimônio, fama ou posição social.
Ao ver Messi chorar, não enxerguei apenas um dos maiores jogadores da história do futebol. Enxerguei um homem. Um homem sujeito às mesmas dores, medos, inseguranças e inquietações que acompanham todos nós durante a caminhada.
Talvez Deus permita que seja assim justamente para que nunca confundamos sucesso com felicidade ou patrimônio com paz de espírito.
A verdadeira riqueza talvez esteja muito mais na serenidade do que na conquista.
Mas foi outra história que me emocionou ainda mais.
A história de Vozinha.
Enquanto milhões comentavam suas defesas contra a Espanha, eu me peguei pensando nos avós que o criaram.
E talvez isso tenha acontecido porque, de certa forma, eu me reconheci naquela história.
Assim como Vozinha, fui criado pelos meus avós maternos.
Quem teve esse privilégio sabe do que estou falando.
Existe uma forma de amor que mora nos avós. Um amor silencioso. Paciente. Generoso. Um amor que não aparece nas manchetes, mas que ajuda a construir destinos.
Enquanto o mundo via um goleiro fazendo história, eu enxergava a vitória silenciosa de dois idosos que acreditaram em um menino quando ninguém mais acreditava.
E confesso que aquilo me tocou profundamente.
Porque muito daquilo que sou hoje não nasceu apenas nos livros que li, nas universidades pelas quais passei ou nos tribunais que frequento há décadas. Nasceu muito antes. Nasceu dentro de casa. Nos exemplos. Nos valores. Nos ensinamentos simples que atravessaram gerações.
Ao olhar para Vozinha, vi um neto honrando a história dos seus avós.
E poucas vitórias são tão bonitas quanto essa.
Outra história que chamou minha atenção foi a de Cabo Verde e Curaçao.
Pequenos territórios. Populações reduzidas. Países que, durante décadas, assistiram aos outros ocuparem os grandes palcos do futebol mundial.
Até que chegou a vez deles.
E talvez o mais importante nem tenha acontecido dentro das quatro linhas.
Talvez tenha acontecido dentro da cabeça das crianças que assistiam àquelas partidas.
Pela primeira vez, milhares delas puderam olhar para a televisão e enxergar a própria bandeira, o próprio povo e a própria história representados diante do mundo.
Pode parecer pouco.
Não é.
Sonhos nascem das referências.
Uma criança dificilmente sonha com aquilo que considera impossível.
Ela sonha com aquilo que consegue enxergar.
Naquele instante, o impossível perdeu força.
E quando um povo descobre que também pode ocupar determinados espaços, algo muda para sempre.
As pessoas passam a acreditar mais.
Passam a tentar mais.
Passam a sonhar mais alto.
Talvez seja por isso que tantas lágrimas tenham sido derramadas.
Não eram apenas lágrimas por causa do futebol.
Eram lágrimas de pertencimento.
Eram lágrimas de esperança. E talvez seja justamente aí que o Brasil precise voltar a olhar para si mesmo.
Durante muito tempo normalizamos a esperteza. Transformamos a malandragem em virtude. Muitas vezes admiramos quem encontrava atalhos em vez de quem construía caminhos.
O resultado está diante dos nossos olhos.
Nenhuma sociedade prospera celebrando a desonestidade.
Nenhuma nação constrói grandeza sustentada na lógica da vantagem permanente.
A transformação que o Brasil tanto espera não virá de um salvador da pátria.
Ela começará quando cada um de nós compreender que honestidade não é virtude extraordinária. É obrigação.
Que caráter não é diferencial. É fundamento.
No final das contas, talvez esta Copa esteja nos ensinando muito mais sobre a vida do que sobre futebol.
Messi nos lembrou que sucesso não elimina a dor.
Vozinha nos mostrou que amor, gratidão e raízes constroem gigantes.
Cabo Verde e Curaçao provaram que pertencimento gera sonhos.
E todas essas histórias parecem nos recordar algo que jamais deveríamos esquecer: nenhuma transformação coletiva acontece sem transformação individual.
Ao terminar este texto, continuo preocupado com o Brasil. Continuo indignado com a corrupção, com a inversão de valores e com a facilidade com que, muitas vezes, confundimos esperteza com inteligência.
Mas termino também com esperança.
Porque enquanto existirem avós formando caráter, pessoas sonhando apesar das dificuldades e seres humanos dispostos a fazer a coisa certa mesmo quando ninguém está olhando, nem tudo estará perdido.
Nem para o futebol.
Nem para o Brasil.
Nem para nós.
Rivelino Liberalino



