Neste artigo, o colaborador Rivelino Liberalino faz uma reflexão sobre os impactos emocionais e sociais do avanço acelerado da tecnologia e da inteligência artificial. O texto aborda temas como exclusão digital, solidão, perda das relações humanas e o distanciamento afetivo provocado pela hiperconectividade da vida moderna.

Confiram:

Outro dia, numa audiência trabalhista em Juazeiro, vivi uma das sensações mais estranhas da minha vida. Um jovem colega advogado, extremamente inteligente, entusiasmado e absolutamente encantado com as novas tecnologias, começou a me mostrar as maravilhas da inteligência artificial. E, sinceramente, aquilo parecia magia. Ele digitava comandos e, em segundos, surgiam pesquisas, teses, estratégias, análises, resumos, petições, ideias. Tudo rápido. Tudo impressionante. Tudo fascinante.

Enquanto ele falava com brilho nos olhos, eu, silenciosamente, me sentia um neandertal. Não pela incapacidade de compreender a tecnologia. Mas pelo medo silencioso de perceber a velocidade brutal com que o mundo está deixando seres humanos para trás. E aquilo me atravessou. Porque a verdade é que essa avalanche já começou há muito tempo. Muita gente ficou no caminho quando o PJe chegou. E ninguém fala disso. Celebraram a modernidade. A praticidade. A velocidade. E, de fato, elas vieram. Mas junto delas veio outra coisa: a exclusão silenciosa.

Vieram advogados brilhantes que nunca conseguiram se adaptar.

Vieram idosos completamente abandonados digitalmente.

Vieram profissionais adoecidos pela pressão de não parecer ultrapassados.

Vieram pessoas humilhadas pela dificuldade de acessar aquilo que antes era simples.

Hoje, para marcar uma consulta, pagar uma conta, acessar um benefício ou simplesmente exercer um direito básico, uma pessoa de noventa anos precisa enfrentar aplicativos, códigos, senhas, autenticações, biometria facial e portais eletrônicos. E se ela não conseguir? Paciência. O sistema não desacelera mais por ninguém. Outro dia li uma frase que me destruiu emocionalmente: “Uma sociedade que obriga um idoso de noventa anos a usar um smartphone para acessar os próprios direitos não é moderna. É uma sociedade que decidiu se livrar dos seus idosos.”

É exatamente isso. Estamos chamando exclusão de evolução. E talvez essa seja uma das maiores tragédias emocionais do nosso tempo. Outro dia também descobri algo ainda mais doloroso. No Japão, idosos estão cometendo pequenos delitos para serem presos. Presos.

Não por perversidade.

Não por violência.

Não por maldade.

Mas porque na prisão ainda encontram companhia.

Ainda encontram alguém para conversar.

Ainda encontram rotina.

Ainda encontram presença humana.

Olhem o grau de abandono emocional da humanidade moderna.

Há pessoas pagando por companhia.

Pagando para conversar.

Pagando para serem ouvidas.

Pagando para sentir que ainda existem para alguém.

Enquanto isso, seguimos celebrando aplicativos.

A tecnologia avançou numa velocidade assustadora.

Mas o coração humano ficou para trás.

Hoje fazemos contratos sem encontros.

Audiências sem presença.

Amores sem toque.

Lutos sem abraço.

Conversas sem olhar.

Famílias inteiras sentadas à mesa olhando para telas diferentes.

Nunca estivemos tão conectados.

E nunca houve tanta solidão.

Nunca houve tantos seguidores.

E nunca houve tão pouca escuta verdadeira.

Nunca houve tanta exposição.

E nunca houve tanta invisibilidade afetiva.

Outro dia percebi algo profundamente simbólico na minha própria vida profissional. Mantive durante anos um telefone fixo exclusivamente por causa de um único cliente idoso. Um senhor simples que dizia sentir segurança ouvindo uma voz numa linha fixa.

Aquilo o fazia sentir acolhido.

Protegido.

Respeitado.

E mantive.

Porque existem pessoas que ainda precisam olhar nos olhos para confiar. Existem dores que não cabem em videochamadas. Existem silêncios que algoritmo nenhum consegue interpretar. Ao mesmo tempo, também tenho clientes que jamais vi pessoalmente. Tudo foi realizado por videoconferência, assinatura digital e Pix. E funciona. Claro que funciona. Mas a pergunta que me atormenta é outra: a que custo emocional? Porque enquanto as máquinas avançam, os seres humanos desaprendem lentamente a conviver.

A paciência desapareceu.

A contemplação virou improdutividade.

O diálogo virou interrupção.

O silêncio virou desconforto.

A profundidade virou lentidão.

E agora chegamos ao ponto mais assustador: robôs escrevem petições.

Robôs analisam petições.

Robôs filtram petições.

Robôs auxiliam julgamentos.

É robô falando com robô enquanto o ser humano vai sendo retirado do centro da própria existência.

A arte perde espaço.

A reflexão perde espaço.

A sensibilidade perde espaço.

A humanidade perde espaço.

E talvez o mais assustador seja isto: estamos impressionados demais com a inteligência artificial e preocupados de menos com a falência emocional da inteligência humana. Estamos criando uma sociedade extremamente eficiente para máquinas e emocionalmente hostil para pessoas. Talvez um dia descubramos, tarde demais, que o verdadeiro atraso não era o homem que tinha dificuldade com tecnologia. O verdadeiro atraso era uma civilização inteira que desaprendeu a abraçar.

Talvez sejamos a última geração que ainda soube ouvir uma respiração do outro lado da linha.

A última geração que ainda batia à porta sem avisar.

A última geração que ainda conversava nas calçadas.

A última geração que ainda sabia esperar.

A última geração que ainda sabia permanecer.

E talvez, quando toda essa euforia tecnológica passar, reste ao homem uma pergunta devastadora: de que adiantou conquistar o mundo inteiro digitalmente… se perdemos a capacidade de segurar a mão uns dos outros?

Rivelino Liberalino


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