A morte brutal de um jovem de 29 anos na saída de uma festa junina na Paraíba motivou o colaborador deste Blog, Rivelino Liberalino, a uma reflexão profunda sobre o assunto. Confiram:
Nem todas as fogueiras acesas neste São João iluminaram noites de alegria. Algumas iluminaram lágrimas. Algumas iluminaram velórios. Algumas iluminaram aquela dor que talvez seja a mais devastadora que um ser humano possa experimentar: a de um pai e de uma mãe caminhando atrás do caixão de um filho.
Nos últimos dias, o Brasil acompanhou, estarrecido, o assassinato do jovem engenheiro Rubens Fernando da Costa Filho, de apenas 29 anos, morto após uma discussão na saída de uma festa junina na Paraíba. Vinte e nove anos. Uma vida inteira pela frente. Sonhos, projetos, abraços que ainda seriam dados, conquistas que ainda seriam celebradas. Tudo interrompido por alguns segundos de violência.
Confesso que as imagens do sepultamento me atingiram de uma forma mais intensa. Talvez porque os anos nos tornem mais sensíveis ao sofrimento humano. Talvez porque a paternidade nos ensine a enxergar o mundo com outros olhos. Ou talvez porque existam dores que não precisam nos atingir diretamente para que as sintamos.
Quando vi aqueles pais acompanhando o corpo do filho pela última vez, lembrei da primeira vez que segurei meus filhos nos braços. Lembrei do meu primogênito chegando ao mundo, da emoção indescritível de carregá-lo pela primeira vez, e lembrei também de uma das noites mais difíceis da minha vida, quando minha filha caçula esteve entre a vida e a morte e foi literalmente devolvida à nossa família. Naquele instante, ainda que por breves momentos, senti o começo de uma dor que jamais desejo a qualquer ser humano.
Porque acredito que existe uma inversão da ordem natural quando um pai enterra um filho.
Os filhos deveriam sepultar os pais.
Não o contrário.
E talvez todos os pais morram um pouco nesse dia.
O sepultamento do corpo é apenas um ato formal. O que realmente é enterrado ali são sonhos, expectativas, lembranças futuras, aniversários que não acontecerão, abraços que não serão dados e palavras que jamais serão pronunciadas.
Quem já esteve próximo dessa possibilidade sabe do que estou falando. Por isso, ao assistir aquelas imagens, não consegui enxergar apenas a notícia.
Vi seres humanos devastados por uma dor que não encontra palavras suficientes para ser descrita.
Nessas horas, um turbilhão de sentimentos invade a alma humana. A tristeza chega primeiro. Depois vem a revolta. A indignação. A pergunta inevitável: “Por quê?”. E, se formos sinceros, em algum lugar da nossa condição humana surge também o desejo de vingança. Não porque sejamos pessoas más. Mas porque a dor extrema frequentemente fala uma linguagem que a razão demora a compreender.
O sertão conhece bem essa história.
Durante gerações, muitas famílias aprenderam que uma morte exigia outra morte. Que o sangue derramado precisava ser vingado. Que a honra somente seria restaurada através da violência. Foi assim que nasceram guerras familiares que atravessaram décadas, destruindo vidas de pessoas que sequer sabiam mais qual havia sido o motivo original do conflito.
Lembrei imediatamente de Abril Despedaçado, obra que retrata de maneira magistral essa tragédia humana. Uma morte chama outra morte. Um ódio alimenta outro ódio. Uma vingança produz outra vingança. E, ao final, não existem vencedores. Existem apenas mortos e sobreviventes carregando cicatrizes.
Talvez por isso a antiga advertência continue tão atual: olho por olho e o mundo acabará cego.
Foi então que encontrei uma resposta inesperada para essa inquietação.
Ela veio na voz do poeta Genildo Santana.
Aos quinze anos de idade, ele teve o pai assassinado na véspera do Dia dos Pais. Tinha todos os motivos para odiar. Tinha todos os argumentos para buscar vingança. Tinha todas as justificativas que a dor costuma oferecer aos que sofrem.
Mas escolheu outro caminho.
Escolheu o perdão.
Não porque a ferida fosse pequena.
Mas justamente porque era profunda.
Em seus versos, Genildo fala da ausência do pai, dos momentos que nunca viveu, das conversas que jamais aconteceram e dos abraços que lhe foram roubados pela violência. E, ao fazer isso, nos lembra de algo fundamental: um assassinato não mata apenas uma pessoa. Mata futuros inteiros.
Talvez o trecho mais brilhante de sua reflexão seja a comparação entre Ariano Suassuna e Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Ambos perderam os pais de forma violenta. Ambos foram colocados diante da mesma encruzilhada. Mas fizeram escolhas diferentes. Ariano transformou sua dor em cultura, literatura e beleza. Lampião transformou sua dor em guerra e vingança.
A dor era semelhante.
O destino foi construído pelas escolhas.
E talvez seja justamente aí que resida uma das maiores lições da existência humana.
Não escolhemos muitas das tragédias que nos alcançam.
Mas escolhemos o que faremos com elas.
Recentemente, Petrolina e o Vale do São Francisco também assistiram a tragédias provocadas por impulsos, desentendimentos e violências que deixaram órfãos, viúvas, pais e mães condenados a uma saudade permanente. Em todos esses episódios, a mesma pergunta permanece ecoando: até quando continuaremos permitindo que minutos de raiva produzam décadas de sofrimento?
Mas o próprio sertão também nos oferece respostas.
Pouca gente se lembra, mas esta mesma terra testemunhou conflitos familiares que ganharam repercussão nacional. Famílias sertanejas mergulhadas em disputas que pareciam intermináveis. Durante anos, o ódio parecia maior que qualquer possibilidade de reconciliação.
E, no entanto, aconteceu algo extraordinário.
A paz foi celebrada.
O perdão encontrou espaço.
A reconciliação venceu a vingança.
Talvez essas histórias não recebam a mesma atenção das tragédias porque a violência costuma gerar mais audiência do que a paz. Mas elas existem. E provam que o ser humano é capaz de interromper ciclos que pareciam eternos. Não é fácil.
Nunca será.
Quem perde um filho, um pai, uma mãe ou um irmão carrega uma cruz que poucos conseguem compreender.
Mas a história do sertão, a história de Genildo Santana e a história de tantas famílias que escolheram a reconciliação nos mostram que existe um caminho mais difícil, e justamente por isso mais grandioso.
Ao terminar estas linhas, volto à imagem daqueles pais paraibanos acompanhando o filho pela última vez. E volto também àquela noite em que quase perdi minha filha.
Talvez por isso eu tenha sentido tão profundamente aquela cena.
Porque quem já enxergou, ainda que de longe, o abismo da perda de um filho sabe que ali não existe espaço para discursos.
Existe apenas silêncio.
Existe apenas compaixão.
Existe apenas oração.
Que Deus console aquela família.
Que Deus console todas as famílias que neste São João trocaram o som da sanfona pelo silêncio do luto.
E que possamos aprender, antes que seja tarde, que a vingança nunca ressuscitou ninguém.
Mas o perdão já salvou muitas vidas.
Inclusive as daqueles que tinham todas as razões para odiar.
Rivelino Liberalino



