Em mais um artigo publicado no Blog, o colaborador Rivelino Liberalino aborda os conceitos de sucesso, felicidade e propósito de vida. Inspirado por uma declaração de Ronaldinho Gaúcho, o autor convida o leitor a refletir sobre a diferença entre realizar os próprios sonhos e viver para atender às expectativas dos outros.

Confiram:

Há alguns dias, assisti a uma entrevista de Ronaldinho Gaúcho. Não havia escândalo, polêmica ou qualquer revelação bombástica. Era apenas mais uma entrevista entre tantas outras. No entanto, uma pergunta aparentemente simples acabou produzindo uma reflexão que permaneceu ecoando em minha mente muito depois de a entrevista terminar.

Durante anos, o mundo repetiu a mesma narrativa sobre Ronaldinho. Diziam que ele poderia ter sido mais disciplinado, mais focado, mais dedicado, mais profissional. Diziam que poderia ter conquistado mais títulos, quebrado mais recordes e permanecido por mais tempo no topo do futebol mundial. Em outras palavras, passaram décadas dizendo a um homem que conquistou Copa do Mundo, Champions League, Libertadores, Bola de Ouro e o respeito universal de torcedores e adversários que ele havia desperdiçado o próprio talento.

Até que alguém resolveu fazer a pergunta que talvez nunca tivesse sido feita da maneira correta.

E Ronaldinho respondeu com uma simplicidade quase desconcertante:

“Eu realizei os meus sonhos. Estou satisfeito”.

Confesso que aquela frase me atingiu como poucas.

Porque ela desmonta uma das maiores ilusões da sociedade moderna.

Quem decidiu que os sonhos dele deveriam ser outros? Quem decidiu que aquilo que bastava para Ronaldinho era insuficiente? Quem determinou que ele deveria desejar mais apenas porque o mundo desejava mais para ele?

Talvez esse seja um dos grandes dramas da nossa época. Vivemos cercados por pessoas tentando realizar sonhos que não lhes pertencem. Sonhos herdados, impostos, comprados, terceirizados ou fabricados por uma indústria que transformou comparação em negócio e insatisfação em combustível permanente.

Vejo isso todos os dias.

Vejo colégios comemorando aprovações em medicina como se estivessem anunciando a chegada ao paraíso. Como se a dignidade humana tivesse hierarquia. Como se determinadas profissões conferissem mais valor à existência do que outras.

Não tenho absolutamente nada contra a medicina. A sociedade precisa desesperadamente de bons médicos. Mas também precisa de professores, agricultores, enfermeiros, motoristas, eletricistas, mecânicos, pedreiros, comerciantes, artistas, escritores, advogados e de tantas outras profissões sem as quais a própria medicina sequer existiria.

O problema nunca foi a profissão.

O problema surge quando ela deixa de ser vocação e passa a ser troféu. Quando o diploma deixa de representar um chamado e passa a representar uma expectativa social. Quando o sonho do filho deixa de ser dele e passa a ser a continuação silenciosa das frustrações dos pais.

Quantos jovens estão verdadeiramente construindo uma vida?

E quantos estão apenas interpretando um personagem?

Quantos escolheram?

E quantos apenas obedeceram?

Posso parecer romântico para alguns. Talvez até ingênuo. Mas não estou aqui fazendo um discurso contra o dinheiro. Dinheiro é importante. Segurança financeira é importante. Conforto é importante.

O problema começa quando o dinheiro deixa de ser instrumento e passa a ser finalidade. Quando a vida inteira passa a girar em torno de uma corrida cujo prêmio nunca é suficiente.

Vivemos em uma sociedade profundamente adoecida. Uma sociedade que transformou aparência em valor moral, que confunde riqueza com realização, fama com relevância, seguidores com amizade, exposição com felicidade e consumo com identidade.

Nunca tivemos tantas vitrines.

E talvez nunca tenhamos tido tantas pessoas vazias.

Vejo pais de família destruindo patrimônios em apostas. Vejo pessoas endividadas tentando sustentar uma vida que não possuem. Vejo casamentos desmoronando para manter uma aparência de prosperidade. Vejo homens e mulheres comprando carros para impressionar desconhecidos enquanto já não conseguem conversar com os próprios filhos.

Vejo influenciadores vendendo felicidade instantânea enquanto muitos deles parecem incapazes de encontrá-la para si mesmos.

E o mais curioso é que muitos daqueles que o mundo aponta como exemplos de sucesso carregam dores que ninguém vê.

Conheci empresários extremamente ricos que perderam filhos para as drogas.

Conheci homens admirados publicamente que vivem a terceira ou quarta família.

Conheci pessoas que acumularam patrimônio, mas perderam o respeito dos próprios filhos.

Então surge uma pergunta inevitável:

Que sucesso é esse?

Outro dia perguntei sobre uma determinada pessoa que não via havia muito tempo. Fiz uma pergunta simples, dessas que fazemos quando queremos saber como alguém está vivendo.

Mas a resposta que recebi me chamou a atenção.

Veio rápida.

Automática.

Quase ensaiada.

Disseram-me que estava muito bem. Que estava ganhando muito dinheiro. Que havia crescido na vida. Que estava rico. Que tinha comprado uma casa nova, trocado de carro e prosperado.

Enquanto a pessoa falava, percebi algo curioso.

Eu havia perguntado sobre uma vida.

Mas estava recebendo um balanço patrimonial.

Era como se tivéssemos nos acostumado a traduzir seres humanos em cifras.

Então respondi, em tom de brincadeira, mas carregando uma inquietação sincera:

“Eu não trabalho na Receita Federal”.

Não estou perguntando quanto ele ganha. Não estou perguntando quantos imóveis possui. Não estou perguntando qual carro dirige. Não estou perguntando qual cargo ocupa.

O que realmente quero saber é outra coisa.

Ele está feliz?

Consegue dormir em paz?

Os filhos estão bem?

A família permanece unida?

Tem amigos verdadeiros?

Ainda consegue sorrir sem precisar fingir?

Acorda pela manhã com entusiasmo ou apenas com preocupações?

Consegue olhar para a própria trajetória e sentir que valeu a pena?

Passamos boa parte da vida preocupados em aumentar aquilo que possuímos, quando a própria existência nos recorda diariamente que nada do que possuímos nos pertence de forma definitiva.

No final, não levamos os imóveis, os cargos, os títulos, os seguidores, os aplausos ou o prestígio.

Levamos apenas a história que construímos, os vínculos que cultivamos, o amor que oferecemos, as memórias que deixamos e a marca que imprimimos na vida das pessoas que caminharam ao nosso lado.

Talvez seja justamente por isso que estejamos fazendo as perguntas erradas.

Estamos avaliando a qualidade das vidas pelas coisas que as pessoas possuem, quando deveríamos observá-las pelas relações que construíram, pelo amor que cultivaram, pela paz que encontraram e pelo significado que conseguiram atribuir à própria existência.

Porque, no final das contas, não é a conta bancária que acompanha alguém até o último suspiro.

São as escolhas.

São os afetos.

São os vínculos.

São os sonhos que verdadeiramente lhe pertenciam.

Talvez Schopenhauer estivesse certo ao afirmar que a vida oscila entre a ânsia de possuir e o tédio daquilo que foi possuído. Corremos desesperadamente atrás de algo. Conquistamos. E logo passamos a correr atrás da próxima coisa. E da próxima. E da próxima. Como se a felicidade estivesse sempre alguns metros adiante.

Mas talvez ela nunca tenha estado na chegada.

Talvez estivesse no caminho.

Talvez estivesse na família.

Talvez estivesse nos amigos.

Talvez estivesse no propósito.

Talvez estivesse na paz.

Talvez estivesse simplesmente na coragem de viver a vida que faz sentido para você.

E é exatamente por isso que a resposta de Ronaldinho continua ressoando.

Talvez ele tenha compreendido algo que muitos de nós ainda estamos tentando aprender.

A verdadeira tragédia não é não alcançar o sonho que o mundo sonhou para você.

A verdadeira tragédia é passar a vida inteira realizando sonhos que nunca foram seus.

Rivelino Liberalino


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