A partir de julho, pesquisadores devem iniciar a captura e marcação de 50 tubarões no litoral pernambucano, retomando o monitoramento científico dos animais na área.
A medida foi uma das principais definições da reunião extraordinária do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), realizada nesta quinta-feira (4), no Parque Estadual de Dois Irmãos, na Zona Norte do Recife.
A ação anunciada ocorre após mais de uma década sem estudos voltados ao acompanhamento dos padrões de deslocamento das espécies associadas aos incidentes registrados entre este domingo (31) e segunda-feira (1º), que vitimaram uma criança de 11 anos e uma jovem de 19, nas praias de Piedade e Boa Viagem, respectivamente.
Segundo a secretária executiva do Cemit, Danise Alves, o resultado final do edital responsável pelo projeto foi divulgado em 14 de maio e o termo de outorga foi assinado na mesma data. A expectativa é que os recursos sejam liberados ainda em junho para que as equipes iniciem as atividades de campo no mês seguinte.
“Agora em junho o dinheiro vai estar em conta para que a equipe faça toda a mobilização necessária e comece a marcar os animais”, afirmou.
O projeto integra o edital Cientista Arretado, iniciativa desenvolvida pelo Governo de Pernambuco.
Responsável pela pesquisa, o professor Paulo Oliveira, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), explica que o estudo pretende preencher uma lacuna de conhecimento sobre os padrões de movimentação dos tubarões na costa pernambucana.
Segundo ele, o monitoramento permitirá identificar rotas de deslocamento, áreas de permanência, locais de alimentação e possíveis regiões utilizadas para reprodução.
“Vamos conseguir entender de onde esses animais vêm, para onde vão, quanto tempo permanecem em determinadas áreas e se essa permanência está relacionada à alimentação ou à reprodução. São perguntas que hoje ainda não conseguimos responder e que o monitoramento permitirá esclarecer”, explicou.
Como será feita a captura e marcação dos tubarões
O estudo prevê a captura de 50 tubarões por equipes especializadas, que já possuem experiência em trabalhos semelhantes.
Antes mesmo da captura dos animais, os pesquisadores irão instalar uma rede acústica em pontos estratégicos do litoral. Os equipamentos serão posicionados no fundo do mar e funcionarão como receptores capazes de registrar a passagem dos tubarões monitorados.
As áreas onde ocorrerão as capturas ainda serão definidas pelos pesquisadores em conjunto com o Cemit. A expectativa é priorizar locais onde há indícios de alimentação, reprodução ou permanência frequente das espécies estudadas.
A captura será realizada por meio de redes espinhéis instaladas em alto-mar. Após serem capturados, os animais serão levados para uma embarcação preparada para a realização dos procedimentos científicos.
No barco, os pesquisadores realizarão um protocolo completo de identificação e avaliação biológica.
Inicialmente, será feita a identificação da espécie e a medição do animal. Em seguida, serão coletadas amostras de sangue e tecido para análises laboratoriais.
Os pesquisadores também irão realizar exames capazes de fornecer informações sobre a saúde dos animais, presença de contaminantes ambientais e aspectos relacionados à reprodução.
No caso das fêmeas, por exemplo, poderão ser realizados exames de ultrassonografia para verificar se estão grávidas, permitindo aos cientistas identificar possíveis áreas de reprodução ao longo da costa.
Após essa etapa, os tubarões receberão um transmissor eletrônico implantado por meio de uma pequena incisão na região abdominal ventral.
O equipamento, semelhante a um microchip e com tamanho aproximado ao de uma pilha pequena, funciona como um transmissor individual. Cada animal receberá uma identificação própria, permitindo aos pesquisadores acompanhar seus deslocamentos ao longo do litoral.
Segundo a secretaria, sempre que um dos tubarões monitorados passar próximo aos receptores instalados no fundo do mar, o sistema registrará automaticamente informações como data, horário e localização da passagem do animal.
Segundo Danise Alves, todo o procedimento é realizado de forma rápida para minimizar o estresse dos tubarões.
“A equipe já possui uma experiência de mais de 30 anos nesse tipo de trabalho. O procedimento dura cerca de 15 minutos e o animal retorna ao mar logo em seguida”, explicou.
Além do monitoramento dos deslocamentos, os pesquisadores também pretendem analisar a conectividade entre os tubarões encontrados na costa pernambucana e os animais monitorados em Fernando de Noronha.
A expectativa é que os dados obtidos ajudem a compreender melhor a utilização das áreas costeiras pelas espécies consideradas de maior interesse para a pesquisa, especialmente os tubarões-tigre e cabeça-chata, além de identificar a eventual presença de outras espécies utilizando a região.
Segundo Paulo Oliveira, o estudo também permitirá avaliar a saúde dos animais e o equilíbrio ambiental dos ecossistemas costeiros. A ocorrência regular de determinadas espécies pode servir como indicativo da qualidade ambiental e da disponibilidade de alimento nessas áreas. (Foto: Cadu Silva).



