Neste artigo, o colaborador Rivelino Liberalino propõe uma reflexão sobre a busca incessante por sucesso, reconhecimento e conquistas materiais em uma sociedade cada vez mais acelerada. Inspirado na trajetória do escritor russo Tolstói, o autor aborda o vazio existencial que pode surgir mesmo após grandes realizações e convida o leitor a repensar prioridades, valorizando relações, propósito, espiritualidade e os aspectos mais simples da vida que, muitas vezes, acabam ficando em segundo plano.
Confiram:
Tolstói tinha tudo aquilo que o mundo costuma apontar como símbolo de uma vida vitoriosa. Era admirado, rico, respeitado, reconhecido dentro e fora da Rússia. Escreveu obras gigantescas, entrou para a história da literatura e alcançou um prestígio que poucos homens conseguiram alcançar. Aos olhos da sociedade, era alguém plenamente realizado. Mas houve um momento em que algo começou a desabar dentro dele. Não de forma barulhenta. Foi silencioso. Uma inquietação começou a persegui-lo todos os dias: “Qual o sentido de tudo isso?”
E talvez exista uma dor muito específica quando o ser humano percebe que conquistou exatamente aquilo que passou a vida inteira buscando e, ainda assim, continua sentindo um vazio difícil de explicar. Tolstói descobriu isso. Descobriu que dinheiro, reconhecimento e aplauso não conseguem calar certas perguntas da alma. Há angústias que atravessam mansões sem pedir licença.
Às vezes penso que nossa geração também está adoecendo disso.
As pessoas vivem cansadas. Correm o tempo inteiro. Trabalham além do limite. Tentam produzir mais, mostrar mais, conquistar mais. A internet transformou a vida numa vitrine permanente. Todo mundo parece precisar provar alguma coisa o tempo inteiro. E, no meio dessa correria, muita gente já nem consegue lembrar quando foi a última vez que sentou em paz sem ansiedade no peito.
A impressão é que fomos aprendendo a sobreviver, mas desaprendendo a viver. E a vida costuma ser dura quando resolve nos lembrar do que realmente importa.
Basta um exame diferente.
Uma ligação tarde da noite.
Uma notícia inesperada dentro de um consultório.
De repente, aquilo que parecia urgente perde completamente o tamanho.
Quem já viu alguém lutando pela própria vida sabe disso. Nessa hora, dinheiro ajuda em muita coisa, claro, mas existe um limite onde ele para. Há dores que patrimônio nenhum alcança. Há ausências que nenhuma influência resolve.
Um pai diante do quarto vazio de um filho não pensa em status.
Uma pessoa diante da notícia de uma doença grave não se preocupa com relógio caro.
Alguém no fim da vida não costuma sofrer porque não comprou mais coisas.
E talvez esteja aí uma das maiores tragédias humanas: descobrir tarde demais o que realmente tinha valor. Muita gente passa anos adiando coisas simples.
O abraço.
O pedido de perdão.
A visita prometida.
O tempo com os pais.
O tempo com os filhos.
A fé.
A própria vida.
Como se sempre houvesse amanhã sobrando.
Mas o tempo passa numa velocidade assustadora. E ele passa para todo mundo. O menino vira homem, o homem envelhece, os pais adoecem, os amigos desaparecem, e quando a gente percebe existem lembranças ocupando lugares onde antes existiam pessoas.
Profissionais que acompanham pacientes terminais relatam algo muito forte: quase ninguém, no fim da vida, se arrepende de não ter trabalhado mais ou acumulado mais patrimônio. O sofrimento geralmente nasce de outra coisa. Das presenças que faltaram. Do amor que foi sufocado pela correria. Da vida que ficou para depois.
Isso mexe comigo porque talvez estejamos trocando coisas essenciais por distrações que não sustentam ninguém emocionalmente. Salomão escreveu, há milhares de anos, que “tudo é vaidade”. E é curioso perceber como uma frase tão antiga continua atual. O homem moderno evoluiu em tecnologia, em consumo, em aparência, mas continua carregando os mesmos vazios dentro de si. Talvez por isso exista tanta gente aparentemente bem e profundamente infeliz.
Aqui no Vale do São Francisco a gente ainda encontra cenas que ensinam muito sem precisar de discurso. Um café simples dividido numa calçada. Um pai voltando cansado do trabalho e ainda brincando com o filho. Uma conversa de fim de tarde. Gente simples que talvez nunca tenha tido luxo, mas ainda consegue dormir em paz.
E isso vale muito. Porque existem riquezas que não aparecem em fotografia.
Também acho que parte desse vazio moderno nasce do afastamento espiritual que a humanidade vem vivendo. E não estou falando de aparência religiosa ou de discurso pronto. Falo daquela necessidade humana de sentido, de direção, de pertencimento. O homem tenta preencher isso de muitas formas. Compra coisas, ocupa a mente, mergulha em distrações, vive tentando anestesiar o silêncio interior. Só que algumas faltas continuam ali.
Cristo fez uma pergunta que atravessou séculos porque continua extremamente humana: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” Talvez a vida, no final das contas, seja muito mais simples do que a gente transforma. No fim da vida, o que permanece não são os aplausos. O que permanece é o que conseguimos construir dentro das pessoas que amamos. É o tempo que demos. O cuidado. A presença. As memórias.
O resto passa muito rápido. E talvez a pergunta mais importante não seja quanto você conquistou. Talvez seja outra: No meio dessa correria toda… você ainda consegue reconhecer a si mesmo?
Rivelino Liberalino



